Thursday, April 29, 2004

O Zé

«Olha o menino...» diz o Senhor Zé a quem entra da porta da rua directamente sobre o balcão dos grelhados. «Então é preciso um ano para cá vir?». Os melhores nacos de vitela de Lisboa e as melhores batatas fritas do país estão lá, confiados desde o antigo regime à melhor cozinheira de Lisboa. «Então vai ser um Pêra Manca?». A carta tem vinhos que se tornaram antigos. «Ai não?». Os clientes conhecidos têm tratamento familiar. «Quer desconto?». E a meio da posta de garoupa, a pergunta agendada: «O vinho chega?». Entretanto, as últimas batatas da travessa. «Vá, até à próxima, dê lá cumprimentos ao outro senhor...»

Wednesday, April 28, 2004

O Palácio

Poucos são os privilegiados em partilhar a mesa sobranceira às vinhas da Bacalhoa para almoçar. Ainda mal tinha começado a beber o espumante do outro palácio, o de Loridos, e tentava recordar a data da última visita, quando sem especial propósito, um dos anfitriões me falou no Petit Verdot. Foi feito nos dois anos que passaram mas não é ainda hoje passível de venda. Apenas 600 litros. É novidade nacional. Aliás, lá fora é também sempre uma originalidade. O de 2003, recém retirado do casco traz à memória a prova do Griñon, que continua a ser a referência ibérica para esta produção monovarietal. Depois na varanda, na companhia da família e com as doze fiadas da casta em frente, serviram-se os outros vinhos da casa com o almoço propriamente dito. Terminou com doce conventual e Moscatel Roxo de 92, que não se consegue encontrar em lado nenhum. Quanto ao P.V., teremos que esperar que a lei mude e a sorte favoreça esta audácia ou que vá para a praça tendo no rótulo apenas estas mesmas iniciais. «To live outside the law, you must be honest...» (já dizia o Bob Dilan?).

Tuesday, April 27, 2004

Saraiva's

Neste antigo clube de sportinguistas, serve-se comida tradicional para os clientes costumeiros. A massada de garoupa do almoço era bom exemplo do que se pode fazer de muito bom sem preconceitos. Com picante, torna-se única. O pessoal assegura aos conhecidos que a receita é a mesma do arroz de garoupa, mas com massa. Também o Vinha Grande de 2000 que acompanhava respeita a mesma tradição de boa qualidade à maneira antiga. E também sem presunções. Surpresa é a nova colecção de cervejas de várias origens que agora o Salvador tem à venda. Parece que estão lá mais para uma merenda ou visita fora de horas, e ignora-se se os rotineiros comensais alguma vez se aventurarão por esses campos. Para mim, será já na próxima oportunidade, nem que não seja para recordar as Duvel que marcaram a abertura do ano lectivo na minha passagem por Bruges. Não vai perder pela demora, além do mais porque ficou lá aberta a nossa garrafa de Vintage de 91 da Ramos Pinto. Que, tal como a memória das Duvel, já arrasta o peso dos anos.

Sunday, April 25, 2004

Picanha

Que rico dia de primavera! Não faltou o calor nem a companhia dos amigos à hora do almoço para comer picanha com saladas frescas. E a acompanhar? Cerveja. Porque o dia é revolucionário que baste. Tudo com peso e medida, em tabuleiros. Muito popular.

Friday, April 23, 2004

Almoço de Páscoa em Praga

Não lembraria ao diabo, almoçar em Praga no Ucerta no Domingo de Páscoa. Champanhe da Morávia, comida e vinhos de que não há memória. Repetição para jantar e depois por diversas vezes em companhias feitas e desfeitas, até com a presença do Havel. Histórias de bonés e chapéus, tudo com uma filtragem a sépia ou a preto e branco, em slides que tocavam a todos. Antes tinhamos falhado uma Missa de Mozart na Catedral. Foi em 1988, um ano antes da queda do Muro. Agora, o restaurante tem página web e dentro de uma semana fará parte da Europa do lado de cá.

Tuesday, April 20, 2004

Tous les matins du monde

Depois de um artigo elogioso no DN, tocou-me um excelente almoço no 100 Maneiras, a propósito de um aniversário amigo. É o mais novo dos novíssimos e candidato a notável de Cascais, com excelente localização sobre a praia dos pescadores. Os promotores são também novos e experimentadores. Não é para qualquer um arriscar espumas em desafio ao Mestre catalão Adriá. Nem para qualquer comensal apreciá-las. Serviram o melhor foie-gras confitado com pera e redução de moscatel de que me lembro. Quanto ao vinho - e por estas e outras, a conta deve ter sido consequentemente pesada - limito-me aqui a registar que bebemos metade do stock da casa da Homenagem ao António Carqueijeiro de 1999 do Bento dos Santos ... Que banalização! Um disparate. Aliás, para quem abriu portas há um mês, com mais umas visitas destas, a lista de vinhos perde a estrela convidada. Depois, tudo terminou com um Xerez oloroso de 20 anos a acompanhar a sobremesa. Mesmo sem parecer, o resto da pouca tarde que restou foi a pensar no agradável que seria dormir a sesta à sombra das interpretações do Jordi Savall.

Thursday, April 15, 2004

«So far so good»

Foi preciso regressar à costa de África para conhecer as regras de funcionamento do Royal Ocean Racing Club, a gravata com cavalos marinhos dos sócios deste clube de St. James, as pressões dos ventos e de como se navega em regata. Também para entender o cricket, que se joga em cinco dias com intervalos da uma às duas da tarde para almoço e às quatro e meia para o chá. E que um jogador das West Indies acabou de bater os recordes relembrados com quatrocentos pontos contra a Inglaterra. E também que os supremos de garoupa podem ir muito bem com o molho doce preparado com frutas tropicais e que no Coconuts se vê o por do sol em descida a pique sobre o horizonte. E ainda que aquilo que parece brilhar com mais intensidade no céu escuro a Sudoeste não é nenhuma estrela ou planeta mas apenas a estação espacial internacional.

Thursday, April 08, 2004

Tino Fandiño

Nas cercanias de Ourense, e ao lado da Casa do Concello de Allariz, serve o Celestino Seara de seu nome boas refeições segundo o ritual galego. Facilmente se perde quem desconhece o caminho medieval empredado pelo embrenhado conjunto medieval digno de visita. Depois de entrar numa casa que também ela será de origem medieva, recebe o Tino com o acolhimento usual dos nossos compatriotas do norte da Península. Na mesa, a louça branca e azul de Sargadelos, que está lá posta para quem a reconhece. É tudo bom até ao fim, sem poder escolher ou destacar nada pior. Até o vinho a bons preços, diz quem vem da capital. Voltamos depois de amanhã, com mais convivas, e esperamos que o Comandantesim, porque General era o pai Fandiño») nos receba bem muitas vezes.

Sunday, April 04, 2004

O Escanção

Está na Fortaleza do Guincho o melhor sommelier nacional. Além do mais, é acolhedor e simpaticamente bom conversador. Percebe do casamento da gastronomia com os vinhos. E foi precisamente o casamento que nos levou a lá jantar. Fazia um ano da última visita, e desta também foi para comemorar o aniversário. Entretanto, vários prémios e menções respeitáveis distinguiram o local, a cozinha e o serviço. E por cima de todos, o Manuel Moreira. O menu de dégustation não é a mais nem a menos. Tem novidades que chegue, requinte de apresentação e é sofisticado para merecer as entrelinhas da Revista de Vinhos que entendeu não repetir prémios do ano anterior.

Thursday, April 01, 2004

«O Amuado»

Chegando pela manhã ao escritório, lá estava ele em cima da secretária, apresentado como convite. Assinado e datado de 1892, o quadro de Souza Pinto que também tem por título «Chegado Tarde» marcou o valor mais alto de uma pintura portuguesa na casa leiloeira que agora promove a exposição do autor no Porto. Também me marcou a mim, que assisti à sua venda nesse mesmo leilão e fixei a expressão do miúdo à entrada da casa de aldeia em cena de amuo. Quem veja com os próprios olhos o quadro, percebe. É enorme de tamanho, de sentimentos e até de nome. Não há maior inocência do que a de uma criança amuada.

Tuesday, March 30, 2004

Mais uma aula

Desta vez, foi a convite do amigo Carlos. Nem sequer sabia qual era o programa. Também não era preciso falar com o responsável da pós-graduação. Aceita-se e pronto. Afinal o programa era livre, para expor a minha experiência pessoal, ou sobre o que se espera dos outros. Só me faltava esta. Ainda corro o risco de ser sincero.

Friday, March 26, 2004

De volta à Meia-Noite

O regresso está marcado para as 23 e 59. Ainda com o mesmo suor do sol da varanda do décimo quinto andar sobre a baía ao início da tarde. Os fatos não são para aqui. O sol sim. Afinal toda a carne é proveniente da África do Sul. Não se pode confiar. De regresso daqui a três semanas para evitar que nos voltem a chamar «seagull», recolhendo o peixe da água e no ar o mais depressa possível. Mas ainda não é desta que fico adepto.

Wednesday, March 24, 2004

Posta Mirandesa

Era o que dizia por debaixo da travessa do buffet. Vinha do Brasil, e o Sr. Inácio, chefe de cozinha não pode confirmar o nome que lhe davam na origem. Porque tinha ido almoçar. Continuo na costa ocidental de África e comi quatro. Memorável. O picante à parte era obrigatório, claro. Não vou jantar.

Saturday, March 20, 2004

A Verdadeira Classe

Viajar nesta Primeira Classe remonta a outros tempos. Altos dignatários ou família directa deles, governantes e governadores, uso do Protocolo do aeroporto. A muamba acompanhada de Esporão reserva é própria de um almoço de Sábado. Sair sem mostrar os Passaportes também já não foi novidade. Que calor. O mundo real à nossa espera confessa nem sequer ter o carro que se comprometera alugar para a semana. Funcionou o backup.

Thursday, March 18, 2004

Vem aí a Primavera

Enquanto se discutia porque é que os pássaros agoram chilreiam pela madrugada fora, o Toscano na Parede servia a melhor açorda de que guardo memória. De lagosta, é claro, com base de coentros fortes e envolvida ali mesmo à frente dos comensais. Não passamos a vida a almoçar, mas nestes últimos dias, e em vésperas de uma viagem de trabalho mais cansativa, é bom relembrar que por cá virá entretanto a Primavera. Para onde vou, é fim de verão e calor e não se avizinha qualquer tempo de repouso lúdico. Esqueci-me de fazer em devido tempo a profilaxia da malária. Vamos lá a ver se o tentativo autor da cassete 3 anda a ler estes textos.

Tromba Rija

Tenho que confessar que a visita a Marrazes foi a segunda escolha, depois de a família Suspiro confirmar a impossibilidade de aceitar mais três clientes durante todos estes últimos dias. Um sucesso, este Condestável. Casa cheia a perder de vista e reservas necessárias com uma semana de antecendência nem parece do nosso país. A mais, fora das capitais nacionais. No Tromba Rija, a entrada já não se faz pela porta grande, mas sim pela «porta ao lado», e dá acesso à sala mais pequena do restaurante. Poucas pessoas. As entradas continuam bem. Mas sente-se um não sei quê... De todos os modos, a lista de vinhos de mesa é admirável e com escolha. Beber um Quinta do Mouro 1996 e poder pedir um Touriga Nacional de 2001 do Esporão não é em qualquer lado. A mesa de queijos é isso mesmo - uma mesa cheia de queijos presidida por um triunvirato imbatível de serra, terrincho e cabreiro com marmelada áspera recém desenformada da tijela. Depois, para terminar, o leite creme faz as pazes com qualquer outra coisinha... A propósito, já agora é melhor não dizer a ninguém que fomos a Leiria só para almoçar.

Saturday, March 13, 2004

O Bom Amigo

Não resisti ao impulso da fome nem da curiosidade gastronómica e provei o «fried cod with chips». Ali mesmo, à vista de Castletown, enquanto aterrava o avião que me levaria. Não passou da prova. O cheiro ainda não se desvaneceu da memória. E tive que me ficar pelo «bread and butter pudding». Já em casa, recuperando dos sucessivos vôos, tinha à espera uma das boas formas de o cozinhar, dentre as mil e uma possíveis. Por alguma razão os restaurantes estrangeiros de todas as nacionalidades são tão populares nas ilhas de Sua Majestade.

Tuesday, March 09, 2004

St. George

No St. George Bar não é permitida a entrada a Dragões. O lema da casa poderia ser também o popular dito de Edimburgo para os fracos: «they only drink half pints». Era um antigo salão da Igreja em frente com quem partilha o Santo Padroeiro do mesmo nome e de quem herdou todas as cadeiras e certamente algumas das mesas. Primeiro foram as doses regulamentares de cerveja, depois uns copos cheios de shiraz australiano também pela medida grande que se esvaziaram até ao «sticky toffee pudding» final. Descer para o Hotel na Harris Promenade com o vento do Mar da Irlanda na cara foi para valentes com vontade de ver o jogo contra o Manchester. Quando lá cheguei, já perdiamos por um.

Monday, March 08, 2004

Tic-Tac

Foi necessária a chantagem, recorrendo ao substituto actual dos chupa-chupas - uma caixinha de Tic-Tac de limão - para saber a história dos meninos que procuravam animais que pudessem guardar em casa, até que foi seleccionado o sapo. Quanto aos demais, teria a menina dito «I send them back!». Todo o fim de semana com a expressão na boca fizera supor o alívio de quem despachava os novíssimos discípulos depois das obrigações cumpridas. Mas afinal não. Não tinha sido uma expressão da Miss de inglês que, depois de dada a sua aula, entregava os educandos à formadora seguinte. Ficou ainda por esclarecer a preferência dada ao sapo. Uma expectativa de príncipe?

Thursday, March 04, 2004

«The greatest luxury in life is time»

No meu tempo eram só 50 minutos de aula. E sempre foram. E os minutos do intervalo eram para respeitar, mesmo sem a campaínha do Secundário. Para além do tempo, todas as aulas tinham o sabor de opressão. Depois vinham dez minutos de pausa relapsos, que passavam sem se dar por eles. Agora, parece que é moda dar aulas de 75 minutos... Até nas melhores escolas superiores. Já não subia a um estrado de sala de aulas desde que me despedi da Faculdade por falta de tempo para leccionar. Ou pela vontade de ganhar dinheiro sem sacrificar horas fixas com alunos à espera dos 50 minutos de aula, sempre à hora marcada. Desta vez foi para trocar de funções com o docente, ocupado com dignatários constitucionais em torno de uma questão esguia. Só o Zé, que encontrei à porta da entrada e me acompanhou à sala de aula, apresentando-me aos alunos, ficou a saber das verdadeiras circunstâncias da substituição. Aos alunos expliquei apenas que aquilo que tinhamos trocado de funções, e que aquilo que o docente deles estava a fazer era o que deveria eu próprio estar a fazer. De facto, não almocei...

Friday, February 27, 2004

The Thin Red Line

463 alugueres é o número que consta da minha ficha do video clube. «Passas a vida a ver filmes, e depois dormes pouco...». Que recordações pode haver na memória de quem viu tantas fitas? E somem-se as dos clubes de vídeo das férias, tanto no Norte como no Algarve. Muito melhor e actualizado o primeiro do que o segundo, que não passa de um boteco de Verão. Poucas ficam gravadas mesmo. Talvez pela comparação com o demagógico contemporâneo Soldado Ryan de Spielberg, fica mesmo recordada a obra violenta de Terry Malick com que inaugurei a era do DVD. Tal como o Roger Rabitt do primeiro leitor video depois do casamento. Quanto aos alugueres, resisto a converter os números em preços actuais e dou-me por contente que por essa razão me tenham graciosamente passado a Morvern Callar de uma noite para a próxima Terça-feira.

Wednesday, February 25, 2004

Sra. da Saúde

Já passava da meia noite quando iniciámos o regresso e continuava a chover a mesma chuva que tinha tornado os três dias do desejado acampamento de escuteiros em Évora um exercício de persistente resistência para os mais pequenos. Aos sete anos aguenta-se enquanto se pode. Perante a proximidade dos pais e avós, quebrou. O cansaço e a antevisão de mais uma noite com o saco cama encharcado ajudaram ao desfazer da festa. Entregue ao sono na carrinha de família deverá o jovem lobito ter apreciado como nunca antes a comodidade da viagem, da climatização e da ausência de gotas a cair do tecto. E também terá passado a apreciar o calor da cama de casa e do sossego doméstico. Pelo menos até farejar o cheiro da próxima aventura da Alcateia. Já na Páscoa...?

Monday, February 23, 2004

Crumble

Dá vergonha explicar que a minha primeira prova ocorreu no último vôo transatlântico a bordo da primeira classe da British Airways. E que a receita que trouxe para casa veio da hospedeira encarregada da supervisão da cabine. Era aquela a sobremesa tradicional dos Domingos em casa da mãe dela. O segredo estaria em misturar com os dedos manteiga aos cubos com açúcar amarelo e depois levar a um forno muito quente. Para mim, o segredo dessa primícia foi acompanhar também com um colheita de 1984 da Warre que ia a matar. Neste fim de semana, em casa, nem as frutas ficaram suficientemente cozinhadas nem o Moscatel de 20 anos superou o conjunto do meio do Atlântico. Valeu o resultado do FCP para suprir a desalentadora experimentação. O conjunto não era, afinal, de primeira classe...

Wednesday, February 18, 2004

Porto Novo

«Eu a si, conheço-o», disse-me o responsável pelo serviço quando entrámos na garrafeira envidraçada do restaurante do novíssimo hotel. Só me faltava esta. Mas não, eram recordações de estadias no Vintage House, onde com o responsável pela Academia do Vinho tinha organizado uma prova de vintages 2000 com vitória do Graham's e destaque para o Quinta do Portal. Agora, depois do reconhecimento dos Symington pela Wine Spectator, deve saber bem essa recordação. Na garrafeira também não faltava o Chryseia por preço razoável. O serviço veio a revelar-se muito simpático, as sugestões da casa muito boas e o vinho uma boa combinação por preço aceitável. Mais um local de referência que se deseja mantenha por muito tempo os padrões que hoje exibe. A propósito, o Pedrinho tinha lá estado a jantar com a mulher na noite de S. Valentim.

Ora Poças!

Quem não esperava pela visita era a D. Altina. Recebeu bem, como sempre, desta vez acompanhando os ilustres visitantes com a boa fluência do seu inglês, a quem explicou que o Senhor Vinho do ano era o Sr. Manuel Poças Pintão, da terceira geração de proprietários. O meu convidado estranhou a idade das pipas e mais ainda a pequena carpintaria que artesanalmente colocava braças em toneis e pipos que necessitavam reparação. Memorável foi a incursão pela sala de provas. O terceiro vintage de 2001 foi dado à comparação com o vintage de 2002 (sim senhor, adivinha-se ano vintage, e de grande categoria!). Ficamos a saber que de 2003 virá um grande vinho tinto com teor de álcool do novo mundo. Por fim, foi oferecida a prova da colheita mais antiga da estante, com exactamente quarenta anos. Nunca me tinha acontecido às dez e meia da manhã já estar para quase vomitar com excesso de álcool.

Saturday, February 14, 2004

Sopa de peixe

Nunca tinha comido tão boa sopa de peixe. Nem supunha que se pudesse fazer dela um prato de S. Valentim. O chefe, de grande mérito e nomeada, já casado algumas vezes mas sempre por pouco tempo, confidenciou que o segredo estava na base, com diversas verduras e os pimentos sem pele. Depois, peixe, marisco e malaguetas normais. Quanto mais quente, melhor. Houve quem achasse o cherne o melhor de tudo. É preciso ter cuidado quando as mulheres utilizam o cherne para referência...

Monday, February 09, 2004

Peralada

O fim de semana esteve recheado com diversas emissões de concertos do Keith Jarrett e do seu trio. Algumas com mais de vinte anos, com olhares e som antigo. Mas sempre a mesma musicalidade. A mesma que me levou a coleccionar todos os seus álbums, a escrever-lhe sem esperar resposta e a fazer por estrada mais de três mil kilómetros para o ir ouvir. Foi neste Verão que passou. Nos tempos recentes terá sido a vez que o trio mais perto passou do firmamento português. Fez esquecer o castelo e conjunto medievais catalão, a Figueres natal de Dali e a gastronomia (é verdade!) que hoje tem reconhecimento mundial. Os entendidos sabem do que falo... Os bilhetes estavam religiosamente guardados à entrada em meu nome num envelope que ainda guardo. O auditório do castelo encheu por completo, fez-se silêncio e a escuridão acompanhou a entrada dos músicos. A organização era esmerada e o público conhecedor. Todos respeitaram a solenidade do acontecimento reconhecendo cumplicemente a superioridade do momento. Quaisquer palavras estragariam a memória da música que se criou naquele palco. Voltaremos sempre.

Friday, February 06, 2004

Peixe Galo

O folhado e o molho de base em que assentava o peixe galo do restaurante do El Corte Inglês estavam irrepreensíveis. E ainda beneficiaram da companhia da última garrafa de reserva branco do Esporão do ano em causa, e daí para a frente, também da melhorada companhia dos próprios 14º do dourado néctar. Para acabar, com os queijos veio um Moscatel Roxo de 91. Tudo, onde se sabe, com vistas para o parque e a Domus Iustitiae. Quem diria...

Thursday, February 05, 2004

S. Salvador

Ouvir no canal Mezzo o Gilberto Gil falar de Neguinho do Samba, Paul Simon e da casa que este comprou para instalar o que viria ser o movimento Olodum traz-me à memória o suave amargo sabor das ruas empedradas do Pelourinho, dos ritmos e das gentes que nelas vivem. Quem ouviu o Swing do Pelô não esquece as histórias africanas dos bandos que encarnam nas fachadas agora restauradas das casas e igrejas dos séculos portugueses. Depois, descendo para a marginal pelo percurso carnavalesco dos Filhos de Gandi, ouve-se a música do Axê (raio de nome que só poderia ter sido dado para popularizar a sua pejorativa difusão) e o vento quente do mar que acompanha a última refeição no afamado Yemanjá antes de regressar ao aeroporto. Mas nem as abundantes porções das melhores mesas da Baía apagam o rufar das percursões das velhas calçadas portuguesas.

Wednesday, February 04, 2004

Las Brasitas

Boa surpresa, esta das Brasitas. O pessoal não é argentino nem de origem nem de estilo (não encontram sempre um problema para cada solução) mas em geral um pouco mais ao norte geograficamente. E mais simpáticos, naturalmente. Ir às docas em dia de sol durante a semana também é bom. A extensa carta de vinhos entretém quem espera pelas entradas de enchidos na brasa a que se seguem as carnes variadas na grelha. Vale a pena. Em grupo podem sortear-se sobremesas e regressar bem disposto ao escritório para responder aos mails que chegam durante a sesta. Quem não quer rejuvenescer de vez em quando?

Tuesday, February 03, 2004

Vela Latina

Já há muito tempo que não almoçava na Vela Latina. As mesmas gentes, o mesmo pessoal, alguns anteriores membros do governo e outros ainda do actual, a carta diferente do que me recordava. O queijo de cabra gratinado com mel (gratinado... como não podia deixar de ser!) vai ser servido na próxima oportunidade lá em casa, juntamente com uma novidade da última estadia na casa de amigos em Washington, um brie com alperce no forno. Novidade foi uma costeleta barrosã à milanesa com massa tagliatelle (?) e molho de tomate que estava óptima. «Para o que lhes havia de dar» dir-se-ia em Montalegre. O cheesecake estava como me recordava e acompanhou bem com um para mim até então desconhecido LBV Offley de 97 aberto na altura.

Monday, February 02, 2004

Casa de Goa

A Casa de Goa continua a oferecer um bom parque de estacionamento e os serviços do sossegado restaurante para quem gosta da cozinha respectiva. Jantar nesse mesmo dia é que pode ser mais dificil para os estômagos menos acostumados. O Balchão (alguém me corrige?) de camarão com duas malaguetas de picante vence o caril. Onde estão os saudosos de Goa à hora de almoço? Crepe de coco e bebinca, como não podia deixar de ser, para sobremesa.

Saturday, January 31, 2004

Jogar à chuva

Se não se joga quando se pode, quando é que se pode jogar? Por sorte não choveu até chegar ao carro, já de regresso. Depois, é claro, ninguém me tirou o frio das costas nem a constipação certa para a semana que aí vem. A bruma das nuvens baixas e as luzes da cidade e do aeroporto acompanharam o fim da volta. Três ou quatro bolas perdidas, umas enfiadas na relva ensopada e os sapatos enlameados são as memórias dos nove buracos. Já foi bem pior, quando tive de regressar da Penha Longa quase despido depois de tirar a roupa e sapatos encharcados dentro do carro. Ou ao contrário, na costa baiana quando antes do almoço já estava na emergência médica do hotel com queimaduras graves do sol por todo o lado. Palavras para quê? «Joguinho que não se faz...»

Saturday, January 24, 2004

Vintage House

Continua na mesma, o Vintage House no Pinhão. O cálice de Porto à chegada faz esquecer a necessidade de ir ao quarto deixar as malas. Alguém as levou, enquanto se encomendava no bar um Vintage de 1997 para abrir depois do jantar. A loja de vinhos continua recheada de boas coisas e até se podem comprar livros com fotografias de Lagoaça enquanto se prova mais um Porto. Com bilhar e futebol na televisão na sala de jogod fazem-se horas para o jantar. Como em todas as Confrarias, o que acontece nos jantares não se escreve. Foi pena não dar tempo para ainda beber a tal garrafa de 97. Menos mal que fez a viagem de regresso conosco para uma segunda oportunidade. Será por pouco tempo.

Monday, January 19, 2004

Pennsylvania Avenue

Descer a Pennsylvania Avenue a pé em direcção à Casa Branca antes de tomar o pequeno almoço é só para quem goste de sofrer. Os sobretudos que por cá usamos não servem para um frio daqueles. Também não temos dias com céu azul e sol brilhante que congelam as pessoas pelo efeito do vento. As valetas dos passeios acumulavam gelo da humidade da noite e as poucas pessoas que se viam usavam gorros e cachecóis por cima dos fatos de escritório. Papéis colados nas portas dos bancos e de algumas outras instituições anunciavam o respeito do feriado pelo dia de Martin Luther King. Celebrava-se o seu nascimento e não a sua morte, disse-me o taxista que me permitiu regressar ao hotel, enquanto ouvia os telefonemas para a rádio a propósito do feriado. «Good morning to you, brother», dizia o ouvinte. Foi melhor do que continuar na loja de fotocópias e material informático à espera de recuperar do frio enquanto o gerente me mostrava a última novidade em máquinas fotográficas digitais. «Welcome back, sir» cumprimentou-me o porteiro do hotel, sem estranhar o frio, e habituado às curiosidades de quem visita a capital da nação. Não cheguei a ver a neve nos jardins da Casa Branca.